A pandemia pelo vírus da gripe suína, influenza A (H1N1), marcou o inverno de 2009, e, em menor extensão, pode se repetir em 2010. Como muitas epidemias passadas, a mão humana esteve por trás do seu surgimento e disseminação.
Há cerca de dez mil anos começamos a domesticar os animais. Vírus mutantes do gado atingiram o homem originando o sarampo, enquanto do camelo ou, menos provável, de roedor, veio o vírus da varíola. Hoje, porcos e aves protagonizam o nascimento do vírus da gripe suína. Pior, o risco de novos vírus influenza tende a se elevar. Durante a última grande pandemia de 1968, a gripe de Hong Kong, os chineses criavam cerca de 5 milhões de porcos, hoje são 500 milhões; enquanto 12 milhões de aves saltaram para 13 bilhões. O crescimento populacional do planeta para mais de seis bilhões de pessoas arrastou o dos animais. Quanto maior o número de aves e porcos aglomerados, maior a chance de novos vírus.
Disseminamos epidemias com maior rapidez graças à aviação. Enquanto o México comunicava a nova epidemia ao mundo, mais de um milhão de passageiros já haviam deixado o país. O vírus desembarcava em outras nações. No passado, dependeria de estradas e navios. As conquistas do império romano trouxeram o sarampo e a varíola asiáticos para a Europa. A peste negra européia do século XIV se alastrou pelas estradas e levou dois anos para matar um terço da população. Embarcações européias levaram vírus do sarampo, gripe e varíola aos povos indígenas da América no século XVI. Desde então, essa tríade mataria mais da metade da população nativa. Navios negreiros da África trouxeram a malária, esquistossomose e febre amarela ao Brasil. No século XIX surge embarcação a vapor, o Canal de Suez e estrada de ferro. As distâncias se encurtam, e a cólera consegue deixar a Ásia para chegar à Europa e América.
As cidades industriais com aglomerados de trabalhadores depauperados pela má alimentação e longas jornadas de trabalho é palco de epidemias transmitidas pelas vias respiratórias. O século XIX é o auge da tuberculose, coqueluche, difteria, escarlatina, além das conhecidas varíola e sarampo. As diarréias se juntam ao grupo pela falta de saneamento básico. Mais da metade das crianças morria antes de completar cinco anos de idade.
Os noventa anos que separam a gripe espanhola de 1918 e a suína mostram a velocidade de disseminação. A espanhola levou pouco mais de seis meses para se globalizar, enquanto a suína apenas semanas. Os boatos permanecem. A espanhola seria um castigo de Deus pelos pecados, ou causada pelos gases venenosos, miasmas, emanados dos corpos em decomposição, sangue e bombardeios da Primeira Guerra Mundial. A era da internet divulgou e-mails aventando a possibilidade do vírus da suína ter sido criado em laboratório para indústrias farmacêuticas lucrarem com a venda de anti-viral. Em 1918, os boatos diziam que o governo omitia que cidades brasileiras enterravam corpos em valas coletivas. Fato semelhante circulou pela internet: o governo escondia o verdadeiro número de mortes da suína. Tudo boato.
O vírus influenza da suína é novo à humanidade. Por isso, trouxe surpresas. Idosos, para espanto, foram poupados. Gestantes despontaram como alvos da gravidade da doença. Obesidade surge como grupo de risco para complicações. Jovens hígidos e saudáveis sucumbiram pela doença. A população ansiava pela chegada da vacina. Agora que ela existe surgem dúvidas infundadas a respeito da sua necessidade. A vacina é mais uma arma para conter o número de mortes e o avanço da epidemia. Devemos aproveitá-la e deixar de lado mitos e receios que acompanham a história das vacinas.
Chineses, em 1000 d.C., usavam meios para evitar a varíola. Recolhiam crostas secas na pele dos pacientes recuperados, maceravam-nas até obter pó, e o assopravam nas narinas das crianças. Mucosas nasais absorviam fragmentos de vírus mortos e imunizavam. O método chegou à Europa no início do século XVIII, porém modificado. Mergulhavam agulhas nas pústulas cutâneas dos doentes e inseriam nos braços das crianças. A inoculação, com vírus vivo, causava feridas extensas além de poder ocasionar a doença. Além disso, a sífilis se propagava pelo método. A técnica européia nascia com medo e receios.
Em 1796 nasce, na Inglaterra, o método que utiliza material coletado de pústulas do úbere de vacas. A doença bovina é causada por vírus geneticamente semelhante ao da varíola, portanto, conferia proteção. Agulhas mergulhadas nessas pústulas eram inseridas nos braços humanos. Utilizava-se então a varíola da vaca (variolae vaccinae), daí vacina. O receio: nasceriam chifres e úberes nas pessoas inoculadas com material bovino.
Novas vacinas inundaram o século XX. Os receios permaneceram. Efeitos colaterais e complicações aguçavam o imaginário popular. Complicações neurológicas pela vacina da raiva geravam pânico no início do século. Vacina da febre amarela contaminada com vírus de hepatite despertou dúvida na década de 1940. Vacina para sarampo desencadeia febre e doença na década de 1950. Até mesmo a salvadora vacina contra a pólio foi vista com receio. O vírus era replicado em células de rim de macacos e, em 1960, descobre-se um novo vírus nesses primatas. Os vacinados adoeceriam pelo novo vírus? Nada se confirmou. As vacinas se sofisticaram, e hoje, quando indicadas, só trazem vantagens.
Os receios incluíam teorias que vacinas originaram a aids, o mercúrio presente precipitaria autismo, e outras tantas jamais provadas ou mesmo descartadas. A vacina contra a gripe não passou em branco. Surge o mito que a vacina causa a gripe. O vírus utilizado é morto, portanto, não causa doença. Por que o mito? A ação plena da vacina ocorre após 14 dias, o vacinado pode ficar gripado antes disso. Infecção por outros vírus, como o do resfriado, podem ser interpretados como gripe e manter aceso o mito. A vacina pode causar sintomas leves de febre baixa, dores pelo corpo e indisposição. Isso não é gripe, apenas reações passageiras que uma minoria apresenta.
A vacinação em massa pode elevar relatos de reações vacinais, porém, inofensivas e previsíveis. A vacina será uma arma para nosso próximo inverno.